Toda vez que leio um livro, consigo remeter a algum causo, pessoa ou momento meu. Desta vez, lendo aqueles clássicos norte-americanos da década de 1950 e 1960, sinto grande felicidade. Confesso que sou fraco para buscar literatura - costumo ver os livros de bolso, comprá-los e lê-los. Não me inclino para a poesia da forma com que acho que deveria fazê-lo. Eis que, no ano passado, encontro um amigo, um cara que é da família, nestas andanças pelo Blogspot, fazendo as poesias que sempre fez; pelo menos, desde que me conheço por gente, vejo o amigo Júlio escrever poesias, boas poesias, sinceras, belas.
Acometeu-me, num ônibus direção ao trabalho, um sentimento de felicidade em saber que as atuais poesias do Júlios, os haicai, são coisas não tão novas e com ar de rebeldia. A princípio, sou um ignorante na arte da poesia - nota-se. Aqueles insanos da época dos rebeldes sem causa dos anos 1950 me lembraram este amigo, que é contrário a maioria da população, contrário ao senso comum, contrário ao conformismo, contrário aos apertadores de potões de controle remoto da tevê. Eles inspiravam a vontade de viver; sinto isto ao ler os haicais do Júlio. Mas, vamos ao trecho do texto de Jack Kerouac, em Vagabundos Iluminados:
Um verdadeiro haicai tem que ser tão simples quanto mingau e ainda assim fazer com que você enxergue a coisa como ela é, como o melhor deles, provavelmente, aquele que diz: 'O pardal saltita pela varanda, com as patas molhadas'. De Shiki. Dá para enxergar as pegadas molhadas como uma visão na mente e ainda assim aquelas poucas palavras também dá para ver toda a chuva que caiu naquele dia e quase sentir o cheiro das pinhas úmidas".
Sei que o ar dos "Vagabundos iluminados" é completamente diferente. Eles são de uma geração do ter tudo, poder tudo, e nós, brasucas, somos de uma outra geração, de outro povo, de outros valores. Não temos muito, somos assim, meio que jogados a esmo pelo vento sul que bate ali na Praia da Saudade. Escutamos as marolas da baia norte e sul e chamamos aquilo de ondas; acreditamos que subir o Cambirela é um enorme desafio porque não conhecemos quase nada do nosso país.
De fato, a vida imita a arte. Mas a arte também imita a vida. E uma sem outra não existe... é um eterno retorno, não como Nietzsche pretende, mas como o movimento se mostra.